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Democracia sob pressão e o jornalismo no centro desse processo

  • Foto do escritor: Daiane  Dultra
    Daiane Dultra
  • 27 de abr.
  • 3 min de leitura

Há algum tempo tenho me debruçado sobre o ecossistema de financiamento do jornalismo e recentemente li bastante para facilitar um evento sobre o tema. Esse exercício me fez querer escrever este artigo que compartilho com você hoje.


Estamos diante de uma mudança estrutural de direcionamento do jornalismo no mundo, e também na forma como ele é financiado, pois hoje se trata de uma infraestrutura essencial que sustenta a democracia e o estado de direito.


A discussão já não é mais sobre escassez de recursos, grandes conglomerados de mídia em expansão, o domínio das redes sociais e big techs. É sobre como, por quem e para quê o jornalismo será sustentado nos próximos anos.


Mas o seu modelo de financiamento está em xeque.


E a pergunta que precisamos enfrentar é: estamos construindo as bases para a sustentabilidade do campo ou apenas reagindo a uma crise contínua que não aparenta chegar ao fim?


Os dados mais recentes mostram um cenário preocupante: a democracia global recuou a níveis de 1978, e hoje cerca de 74% da população mundial vive em regimes autocráticos.


Não por acaso, em países em processo de autocratização, 73% utilizam a censura à mídia como estratégia central.


Isso revela algo fundamental:


O enfraquecimento da democracia passa, necessariamente, pelo enfraquecimento do jornalismo e dos meios de comunicação.


Defender o jornalismo, portanto, não é apenas apoiar um setor, é proteger a própria capacidade da sociedade de produzir verdade, confiança e debate público qualificado.


Menos da metade dos líderes do setor confiam no seu futuro. As receitas tradicionais seguem em queda, os modelos de negócio são instáveis e a dependência de filantropia e fundos internacionais cresce de forma acelerada.


Ao mesmo tempo, vemos:


  • A migração para modelos híbridos

  • Baixa diversidade de fontes de financiamento

  • Concentração de recursos em poucos atores

  • Um mercado incapaz, sozinho, de sustentar o setor


Não estamos diante de um problema conjuntural. O desafio é estrutural e sistêmico. A filantropia é central, mas não será suficiente, apesar de vir desempenhado um papel decisivo nesse cenário.


Ela sustenta inovação, apoia territórios invisibilizados, financia riscos que o mercado não absorve e aposta na missão institucional das organizações.


No Brasil, o cenário explicita essa tensão. De um lado, há organizações mais estruturadas, com acesso recorrente a financiamento. De outro, um conjunto amplo de iniciativas locais e periféricas que permanecem à margem.


Os dados são contundentes: 10 fundações financiaram cerca de US$ 16 milhões distribuídos entre 81 organizações, ao mesmo tempo, 46% das iniciativas nunca receberam qualquer tipo de financiamento. Ou seja, temos um ecossistema ativo, diverso e relevante, mas uma parte significativa dele segue fora do radar dos financiadores.


O jornalismo vive também uma crise profunda de confiança. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil sustentar a credibilidade. A queda projetada de mais de 40% no tráfego vindo de mecanismos de busca nos próximos anos é apenas um dos sinais de um cenário mais amplo, pressionado por três forças simultâneas:


  • Plataformas digitais

  • Inteligência artificial

  • Mudanças radicais nos hábitos de consumo


Esse novo ambiente exige mais do que adaptação. Exige reconfiguração estratégica do próprio campo. Por isso, diante dessas pressões, organizações jornalísticas têm se reinventado e tentado diversificar fontes de receitas e modelos híbridos de negócios, buscar uma conexão maior com agendas mais amplas da filantropia, além de desenvolver novos produtos e arranjos institucionais com maior flexibilidade jurídica e operacional.


Mas há um fator determinante nesse processo, pois quando o financiamento estruturante chega, os resultados aparecem quase que imediatamente. E neste caso, estamos falando de aumento de receitas, ampliação de fontes não-filantrópicas, crescimento em audiência, alcance e confiança para fortalecer sua autonomia.


Os caminhos que estão emergindo apontam para algumas exigências, pois não se trata apenas de aportar recursos isoladamente, trata-se de reposicionar o papel do financiamento como alavanca de transformação sistêmica.

Diante desse cenário, a reflexão que se impõe é direta:


Estamos financiando o jornalismo para sobreviver ano após ano sem, de fato, pensar em sua sustentação de forma estrutural e estratégica no longo prazo? A resposta a essa pergunta definirá não apenas o futuro do setor, mas também a força da nossa democracia.


Um abraço,


Daiane, da Painá Catalisadora de Impacto.

 
 
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