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Como seguir sendo gente quando o mundo virou sistema?

  • Foto do escritor: Daiane  Dultra
    Daiane Dultra
  • 28 de abr.
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 3 dias


Por Mariana da Mata, Estrategista e Captadora de Recursos na Painá


Algumas hipóteses depois do SXSW 2026 sobre o que acontece com a filantropia quando o comportamento muda.


Tem uma sensação que fica depois do SXSW que não aponta pra frente, não organiza o que está por vir e não ajuda muito a prever o que vai acontecer. Parece menos sobre o que vem depois e mais sobre algo que já virou pano de fundo. Tá ali, mas ainda meio fora de foco e é o presente.


Você também tem a sensação de que o presente está acontecendo de um jeito que a gente não consegue ler direito?


Eu voltei do SXSW 2026 sem um mapa de tendências (ou meu download, como tá na moda agora dizer). Voltei com mil ideias espalhadas. Algumas coisas de que nunca tinha ouvido falar e outras que pareciam se repetir o tempo todo. Em painéis sobre filantropia, ativismo, cognição, pertencimento, ESG, trabalho e IA. Demorei a escrever sobre isso. Fui rever palestras, juntar pensamentos que estavam em cadernos, áudios pra mim mesma e muitos links que salvei pra ver depois.


Tive que organizar tudo, engolir, digerir e processar pra conseguir escrever.


Debaixo de temas completamente diferentes, tinha uma tensão circulando sem nunca ser nomeada com exatidão. Os sistemas que a gente construiu continuam funcionando com uma premissa que pode já não ser verdadeira: a de que o humano não mudou.


A coisa que todo mundo estava dizendo sem dizer


Numa palestra sobre cognição e IA, a Dr. Sahar Yousef, neurocientista cognitiva, apresentou dados que ainda não tinham sido publicados em lugar nenhum (nessa hora, as pessoas na sala pararam de mexer no celular). O dado era muito simples e, pela própria simplicidade, muito assustador: pessoas com dependência digital são 30% mais propensas a entregar o raciocínio pra IA. Não a pesquisa, não a execução. O raciocínio. A parte de pensar de verdade.


E, em algum momento da fala, ela colocou isso de um jeito ainda mais direto: a gente pode ficar mais eficiente sem continuar sendo capaz.


E esse fenômeno já tem nome: IAtrofia.


A IA está tirando da gente o esforço. A fricção. O desconforto de não saber, de ter que elaborar uma ideia do zero, de errar no meio do processo e corrigir. Ou seja, a IA está tirando da gente justamente o que faz o aprendizado acontecer. E o que ela disse não era uma crítica à tecnologia. Era uma observação sobre comportamento. Sobre o que acontece com um músculo quando você para de usar.


Na mesma sala, Greg Shove, CEO da Section AI, falou que existem 2 perfis de uso da IA, que ele chama de driver (piloto) e passenger (passageiro). Os drivers gerenciam a IA. Os passengers deixam a IA gerenciar eles. E ele disse que, nas empresas que conhecia, a proporção estava indo para 75% de passengers, 25% de drivers. E isso não era preguiça. Era conforto. Era o sistema funcionando exatamente como foi projetado.


Os dois estavam falando sobre o mesmo fenômeno. A delegação silenciosa do que é mais difícil.


Quem financia o futuro - e quem está ficando de fora


Em um painel sobre financiamento, um dos dados chamou a atenção: cinco empresas captaram quase 20% de todo o capital de risco disponível no último ano. Trilhões de dólares sendo direcionados para a infraestrutura de IA, enquanto outras ideias, outros problemas, outras populações ficam sem financiamento.


O capital não encontra as melhores ideias. Capital encontra as redes; então, o que está sendo construído é o mundo de quem já tem rede. O futuro que vai ganhar forma é o futuro de quem já está na mesa. E o que não entra na mesa, o que não tem rede, o que não tem o perfil esperado, fica exatamente onde está.


O ESG que virou checklist


Teve uma sala em que eu entrei que tinha uma energia diferente. Era sobre ESG. Mas a pergunta era: por que a gente está aqui, medindo coisas que não medem nada. A Coca-Cola tem uma pontuação ESG excelente porque doa comprimidos para purificação de água. Ao mesmo tempo, o modelo de negócio central é vender água com açúcar para crianças. A performance da responsabilidade descolou completamente do impacto real.


ESG virou um formulário (ou talvez até nasceu pra isso). Com 600 padrões diferentes no mundo, dependendo de quem financia o que. Uma ferramenta de avaliação que olha com lentes de déficit (o que falta), em vez de lentes de contribuição (o que está sendo construído de verdade).


O que morreu não foi a ideia de que dinheiro pode ser usado para o bem. O que morreu foi a utopia de que um checklist resolve isso.


O que está tentando surgir no espaço deixado pelo ESG, é mais difícil de medir e mais difícil de escalar. É confiança. É relação. É presença em comunidade antes de lançar um produto financeiro nela. É entender que você não financia uma comunidade sem antes ser parte dela.


O pertencimento que precisa ser construído


Jennifer Wallace, pesquisadora de Stanford, falou sobre uma coisa chamada "mattering" . A ideia de que as pessoas precisam sentir que importam. Não apenas existem, mas também são eficientes e entregam resultado. Que importam para alguém. Que a presença delas faz diferença.


E ela disse que o futuro parecia extremamente solitário. Que exigiria de nós a capacidade de conduzir isso a partir das nossas próprias lentes.


O pertencimento não é mais dado. Ele precisa ser construído ativamente e com intenção (a palavra que mais ouvi no evento, depois de 'convergência'). E que os sistemas que a gente usa para engajar pessoas, inclusive sistemas filantrópicos, continuam operando como se o pertencimento ainda fosse automático. Mas não é.


Tem uma quantidade crescente de pesquisas mostrando que jovens estão passando mais tempo sozinhos e, ao mesmo tempo, relatando dificuldade de se envolver em relações, mesmo querendo. A abundância de conexão não produziu menos solidão. Produziu um tipo diferente de solidão. A solidão de quem está sempre em contato com todo mundo e não se sente parte de nada.


O que isso tem a ver com filantropia

Tudo.


A filantropia depende de engajamento, confiança, pertencimento e decisão. E essas quatro coisas estão sendo transformadas por sistemas que a maioria das organizações filantrópicas não está lendo com atenção suficiente.

Engajamento não é mais uma obrigação que as pessoas cumprem porque sempre o fizeram. As pessoas engajam quando há conexão real, significado e uma ação possível e concreta. Não quando há um formulário de doação que chega por email com o assunto "Apoie nossa causa".


Confiança virou moeda. É moeda escassa, ainda mais numa época em que qualquer organização pode produzir conteúdo, qualquer marca pode ter uma voz, qualquer empresa pode assinar um manifesto de impacto. O que diferencia quem sustenta credibilidade de quem só sustenta presença digital já não é o volume. É a consistência do que se faz quando ninguém está prestando atenção.


Pertencimento virou ativo. Não é um sentimento que surge naturalmente de participar de uma causa. Algo que precisa ser deliberadamente construído. E que quando existe de verdade, quando as pessoas sentem que fazem parte de algo que as enxerga, muda completamente a natureza da relação com a organização.


E decisão está sendo mediada. A pessoa que decide doar, engajar-se e se comprometer com uma causa está sendo moldada por sistemas que reduzem a fricção e delegam raciocínio. Isso não é uma abstração. É uma mudança concreta na forma como pessoas processam informação e atribuem valor às coisas.


Hipóteses, não respostas


Muita gente volta do SXSW com certezas: tendências, recomendações, o que devemos fazer e para onde devemos olhar. Eu voltei com hipóteses.


Sobre o desalinhamento entre o que a filantropia oferece e o comportamento real de quem pretende engajar. Sobre capital que não produz impacto quando não tem relação real com quem é beneficiado. Sobre pertencimento que virou ativo escasso. Sobre decisões cada vez mais delegadas a sistemas que otimizam a eficiência, não o impacto.


E sobre uma frase que ouvi num papo com a Jamie Lee Curtis, que veio ao SXSW falar sobre democracia, clima e o que nos cabe fazer diante dos dois: uma IA não vai chorar se você morrer.


O que ela está dizendo não é sobre tecnologia. É sobre o que é insubstituível no humano: a capacidade de se importar de um jeito que tem peso, que tem consequência, que não vem de conveniência.


E é exatamente esse o ponto de entrada da filantropia nesse contexto todo. Não a filantropia como instrumento de impacto mensurável ou como plataforma de engajamento otimizado. A filantropia como campo onde ainda faz sentido perguntar: quem vai se importar?


O que significa gerar impacto quando o comportamento não responde mais da mesma forma?


Ainda não sei. Mas acho que a pergunta já é um começo.




 
 
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