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Um outro eixo: notas sobre um novo olhar para o financiamento e a Cooperação Sul‑Sul

  • Foto do escritor: Daiane  Dultra
    Daiane Dultra
  • 5 de fev.
  • 3 min de leitura


Estamos vivendo uma mudança geopolítica e epistemológica profunda, que impacta diretamente como pensamos a cooperação internacional, o desenvolvimento e a filantropia.


Nos últimos anos, o financiamento internacional voltado ao Brasil tem sinalizado retração, com mudanças de foco temático, geográfico e institucional.


A esse cenário se somam as tensões crescentes no panorama global, com a escalada de conflitos armados e potenciais guerras, levando países historicamente cooperantes a priorizarem suas agendas internas.


Esse contexto pressiona ainda mais o ecossistema de organizações da sociedade civil, que já operam com recursos escassos. Mas não é a primeira vez, e certamente não será a última, que essas organizações enfrentam desafios estruturais profundos. Historicamente, o campo tem demonstrado uma enorme capacidade de adaptação, reinvenção e resposta aos contextos mais adversos.


Esse momento exige, mais uma vez, imaginação estratégica, colaboração radical e construção de novos pactos de solidariedade internacional.


A lógica tradicional de cooperação Norte–Sul, marcada por fluxos verticais de recursos e modelos prescritos de fora, sozinha já não responde à complexidade dos desafios atuais. Ao mesmo tempo, novos blocos e articulações estão emergindo no Sul Global, com potencial de inaugurar formas de cooperação mais horizontais, enraizadas nos territórios e sustentadas por saberes e alianças locais.


Ampliando as nossas fronteiras


No final de 2025, realizei a minha primeira ida ao Oriente, a partir de um piloto da Painá para explorar novas fronteiras de financiamento para o desenvolvimento além do Norte.


Antes de embarcar para a China, mergulhei em leituras que me ajudassem a deslocar o olhar. Busquei referências que desafiassem as categorias convencionais do desenvolvimento e que me permitissem observar outras lógicas de mundo com menos filtros do olhar ocidental.


Foi também um esforço consciente de desaprender o que li e ouvi por tanto tempo no Brasil, onde muitas vezes somos educados a não compreender, ou mesmo a desconfiar, do Oriente. Observar com mais presença exige entrega.


Exige quase uma nova escuta. Uma nova sensibilidade, como propõe Byung‑Chul Han, quando nos convida a desacelerar o pensamento para perceber aquilo que não grita, mas pulsa.


Li Keyu Jin, que em A nova China — Para além do capitalismo e do socialismo, mostra que há modelos híbridos, estratégicos e enraizados que não seguem a cartilha ocidental, mas funcionam, e reinventam. Para ela, a China está construindo um caminho próprio, com todas as contradições e potências que esse caminho carrega.


Li também Kehinde Andrews, que em The New Age of Empire aponta como os sistemas de desenvolvimento e filantropia global ainda operam sob estruturas herdadas do colonialismo. Para ele, é impossível criar um mundo justo usando as mesmas ferramentas que criaram a injustiça.


Essas leituras se tornaram lentes de observação. A cada conversa, a cada reunião, foi ficando claro que o repertório construído ao longo de décadas com base em uma lógica de cooperação Norte–Sul precisará ser revisto, talvez até substituído. E mais do que isso: percebi que a cooperação Sul‑Sul que se desenha não é apenas geográfica. É também epistêmica.


Ela se materializa em outro ritmo, outra linguagem, outras prioridades. E talvez, justamente por isso, carregue em si a possibilidade de um novo pacto, mais horizontal, mais situado, mais aberto ao que ainda está por vir.


Descolonizar a filantropia, reimaginar o desenvolvimento

A cooperação Sul–Sul está em construção agora, neste exato momento. Ela não é uma promessa distante nem uma teoria abstrata: já existem movimentos concretos, iniciativas bilaterais e multilaterais que sinalizam um reposicionamento do Sul Global em termos de influência, investimento e autonomia.


O desafio está em fortalecer o que já temos e nos preparar para o que não sabemos como será. É complexo, mas é nesse entrelugar que precisamos agir com mais intenção.


Os efeitos da mudança geopolítica, ainda que nem sempre nomeados, já vêm sendo sentidos por muitas organizações. O cenário internacional está em transformação, e essas mudanças inevitavelmente reverberam no acesso a recursos, na sustentabilidade institucional e no papel estratégico das organizações no mundo.


O contexto pede reinvenção, não apenas nas formas de financiamento, mas também na forma como nos posicionamos diante do mundo.


Estamos transitando de uma lógica predominantemente voltada à captação para uma lógica que valoriza posicionamento, articulação e construção de alianças estratégicas. O que está em jogo não é apenas a manutenção dos projetos, mas a participação ativa na criação de uma nova gramática da cooperação internacional.


O Sul está em movimento como projeto político, imaginário coletivo e espaço de criação. Seguir nesse eixo é também um convite: agir com intenção, imaginar com radicalidade e construir com quem está ao lado.


Porque a cooperação, no fim, não é só sobre recursos. É sobre relação.


E isso muda tudo.



Daiane Dultra

 
 
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