Entre algoritmos e afetos: o que ainda nos mantém humanos?
- Daiane Dultra
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- 26 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 3 dias

Eu tenho pensado muito sobre como a gente tem conversado.
Não no sentido mais óbvio: das mensagens, dos áudios, das respostas rápidas que a gente troca o dia inteiro. Mas no que acontece ali no meio, nos intervalos, no que a gente já não sustenta mais.
Porque, ao mesmo tempo em que a inteligência artificial entrou de vez na nossa rotina (escrevendo, organizando, resolvendo, facilitando), eu fico com a sensação de que alguma coisa mais delicada está se reorganizando dentro da gente também.
E nem sempre pra melhor.
É curioso, porque nunca foi tão fácil se comunicar. Tudo flui, tudo anda, tudo funciona. Em poucos segundos, escrevemos textos, estruturamos ideias, resolvemos problemas, respondemos mensagens, resumimos documentos. A velocidade se tornou padrão de eficiência.
Mas é essa a comunicação que nos preenche?
Resolvi escrever aqui depois que li Dani Arrais, neste post da Contente, que me deixou reflexiva e totalmente contemplada. Dani deixou de usar a Inteligência
Artificial para a produção de textos. Ela diz:
“Imagina voltar para o básico: eu escrevo, você lê, a gente se comunica como humanos”.
Precisamos parar para lembrar como era umas décadas atrás. Houve um tempo em que uma ligação telefônica era um acontecimento. Ligava-se para dizer algo importante, para realmente conversar. Havia pausas, hesitações e silêncios desconcertantes que faziam parte da construção do diálogo.
Houve um tempo em que o fax carregava urgência (risos) e ainda assim, exigia preparo, exigia que alguém estivesse do outro lado, exigia contexto.
E, sobretudo, houve um tempo em que esperar era parte da experiência. Hoje, a espera se tornou desconfortável. Quase intolerável ou sinônimo imediato de descaso.
Sem falar nas novas gerações que nem conseguem entender essa nossa conversa aqui, pois não experienciaram a transição tecnológica de quem nasceu na década de 70/80.
Aqui na Painá Catalisadora de Impacto a gente tem sentido que a tecnologia tem mais nos afastado do que aproximado de quem a gente quer se conectar.
Você tem sentido isso daí também?
Talvez, sem perceber, a gente tenha se acostumado a um tipo de troca que não exige muito da gente. Não exige silêncio, não exige espera, não exige desconforto, não exige presença de verdade.
E presença, você sabe, dá trabalho.
Pode ser viagem, mas por conta disso mesmo ainda temos insistido para tomar aquele cafézinho presencial, enviar mensagens de aniversário e final de ano por correio, fazer encontros presenciais com a equipe, dedicar tempo para responder as mensagens que chegam nas redes.
Porque o argumento de que o trabalho com IA e ferramentas tecnológicas nos deram mais tempo não é bem verdade. Afinal, o que a gente está fazendo com esse tempo? A gente usa pra se aproximar do que importa ou para se afastar ainda mais?
Porque tem coisas que continuam não cabendo em nenhuma ferramenta. A construção lenta de confiança, o desconforto que às vezes vem antes do insight, a beleza meio estranha de uma conversa que não segue roteiro.
No meu lugar de captadora de recursos, vejo que essa atividade se conecta bastante com tudo isso. Porque, no fim, as pessoas não doam para sistemas, elas doam para causas mediadas por pessoas em quem confiam.
E por isso, faço um convite: vamos trazer esse pensamento para cada novo e-mail que escrevemos para abordar um financiador e também para as nossas mesas de negociação. Na hora do pitch não tem IA que nos ajude, é você quem vai fazer os olhos do financiador brilhar. Criar espaços onde a gente consiga, de fato, estar.
A vida fora das telas com seus prompts, algoritmos e respostas instantâneas, exige presença. E presença não se automatiza nem se humaniza. E talvez seja justamente isso que começa a nos faltar.
Não é raro percebermos encontros atravessados por distrações, conversas interrompidas por notificações, relações mediadas por mensagens que poderiam ser de qualquer pessoa ou empresa.
Mas cadê a essência da comunicação?
Essa é uma pergunta profundamente humana!
Sem perceber, vamos naturalizando uma forma de estar no mundo que é cada vez menos relacional e cada vez mais transacional.
Sinto que somos parte da mudança e que os nossos próximos passos serão fundamentais. Acredito que essa seja a revolução mais importante que nos cabe sustentar agora.
Um abraço,
Daiane, da Painá Catalisadora de Impacto.



