O que o SXSW London 2026 nos diz sobre o futuro do setor de impacto?
- Daiane Dultra
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- 6 de ago.
- 7 min de leitura

Quando decidi viajar para a segunda edição do SXSW London na cidade, meu objetivo era entender melhor as mudanças em curso que irão moldar organizações como a Painá Catalisadora de Impacto e tantas outras que assessoramos e acompanhamos diariamente.
O mais interessante é que a primeira coisa que me chamou atenção no evento não foi exatamente aquilo que eu buscava. Durante alguns dias, acompanhei discussões sobre inteligência artificial, criatividade, governança, mudanças climáticas, democracia e novas formas de participação.
Saí de Londres com a impressão de que estamos deixando para trás uma fase em que a inovação era vista apenas como uma questão tecnológica.
O debate agora parece muito mais amplo.
Estamos falando sobre comportamento, relações humanas, poder e sobre quem participa da construção do futuro.
Compartilho abaixo algumas das minhas primeiras notas e reflexões sobre um evento que ainda vou levar um tempo para processar completamente, mas que já deixou pistas importantes sobre os caminhos que começam a se desenhar para a filantropia e as organizações da sociedade civil.
O que é o SXSW e por que eu estive lá
Muitas das conversas que começam nesses espaços acabam chegando, mais cedo ou mais tarde, aos financiadores, às empresas, às políticas públicas e às organizações da sociedade civil.
Meu sentimento ao final do evento foi de que precisaremos circular cada vez mais por espaços como esse. Não para reproduzir suas ideias e aderir a todas as tendências, mas para desenvolver nossa capacidade de leitura crítica sobre o que está mudando e como essas mudanças podem impactar o trabalho das organizações que atuam na linha de frente da transformação no mundo.
Para nós, na Painá Catalisadora de Impacto, estar presente nesses debates é parte do nosso compromisso de atuar entre as discussões globais e os desafios concretos enfrentados pelas organizações que assessoramos todos os dias.
O que vi no SXSW London 2026
Se eu tivesse que resumir o evento em uma frase, diria que o SXSW London foi menos um festival sobre tecnologia e mais um festival sobre como a sociedade está tentando se reorganizar diante das transformações tecnológicas.
1. A inteligência artificial agêntica já começou
O tema apareceu repetidamente ao longo do evento. Estamos saindo de uma fase em que a IA funciona como assistente de produtividade e entrando em uma fase em que ela passa a executar tarefas, coordenar processos e apoiar decisões de forma mais autônoma. A pergunta já não é mais o que a IA pode responder. A pergunta passa a ser o que ela vai fazer no dia a dia das organizações e na relação entre institucionalidades.
2. Nunca se falou tanto sobre criatividade
Quanto mais avançamos tecnologicamente, mais ouvimos falar sobre criatividade.
Uma das provocações mais interessantes ouvi na sessão de Sir John Hegarty da The Business of Creativity que sugere que talvez estejamos caminhando do Chief Executive Officer para algo próximo de um Creative Executive Officer. Para além da mudança de nomenclatura, a provocação apontava para uma mudança de prioridade. Se a tecnologia assume uma parcela crescente da operação, criatividade, repertório e visão de futuro passam a ocupar um papel ainda mais central.
3. Venture Philanthropy no radar
Uma das sessões que fiz questão de participar foi sobre Venture Philanthropy, moderado pela Fundação Max Stenbeck . Apesar do nome, muitas das discussões dialogam com temas que já conhecemos no campo da filantropia estratégica. A provocação continua relevante: problemas complexos exigem recursos comprometidos com mudanças estruturais, fortalecimento institucional e construção de capacidades de longo prazo.
Talvez a novidade não esteja no conceito, mas no fato de ele ter ocupado espaço em um dos principais festivais globais de inovação.
4. Computação quântica no horizonte
Se eu achava que a inteligência artificial iria revolucionar tudo, conhecer mais sobre computação quântica me fez reconsiderar essa percepção. Ainda estamos falando de uma tecnologia em desenvolvimento, com impactos mais significativos previstos para depois de 2030, mas o seu potencial impressiona. De forma simplificada, enquanto os computadores atuais analisam possibilidades uma a uma, a computação quântica tem a capacidade de processar inúmeras combinações simultaneamente, reduzindo drasticamente o tempo necessário para resolver problemas extremamente complexos.
Um exemplo bastante citado é a descoberta de novos medicamentos. Processos que hoje podem levar anos de pesquisa e testes poderiam ser acelerados de forma significativa ao simular milhares de combinações químicas ao mesmo tempo. Para quem atua no setor de impacto, a principal reflexão talvez não seja sobre a tecnologia em si, mas sobre sua capacidade de acelerar soluções para desafios complexos, como saúde, mudanças climáticas, gestão de recursos naturais e análise de grandes volumes de dados para tomada de decisão.
5. Governança e regulação na pauta
Governança, regulação, proteção de dados e responsabilidade digital apareceram de forma muito mais forte do que eu esperava. Talvez porque já não seja mais possível discutir tecnologia sem discutir poder.
Quem controla os dados? Quem define as regras? Quem se beneficia dos avanços tecnológicos? Quem fica para trás? Dos painéis que participei, essas perguntas atravessaram boa parte das conversas. Um dos lançamentos que mais me chamou atenção foi o Charlie, iniciativa de IA liderada por Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web (o nosso conhecido www).
A proposta busca devolver às pessoas maior controle sobre seus próprios dados. Mais do que uma novidade tecnológica, parece uma resposta a uma demanda crescente por confiança, transparência e autonomia digital.
6. Emergência climática e resiliência na agenda
As mudanças climáticas já não aparecem como uma pauta isolada, como em outros anos. Elas atravessaram muitas das conversas que acompanhei em Londres. Destaco especialmente a programação promovida pelo Bellwether Group, da Rockefeller Philanthropy Advisors, que reuniu diferentes perspectivas sobre clima, resiliência e adaptação.
Tecnologia, infraestrutura, finanças, mobilidade, alimentação e governança passaram a ser discutidas a partir de uma lente climática, mas também com foco nas soluções que estão surgindo diante desse cenário. Ao mesmo tempo em que novas tecnologias podem contribuir para enfrentar desafios ambientais, elas também levantam questões importantes sobre consumo energético, uso de recursos naturais e os impactos da expansão de infraestruturas como os data centers sobre comunidades e territórios. Não existe inovação desconectada do planeta. E, cada vez mais, não existe discussão séria sobre futuro que possa ignorar a emergência climática.
7. A disputa pelo futuro também é uma disputa de narrativas
Em meio a tantas conversas sobre tecnologia, inteligência artificial e inovação, uma reflexão me acompanhou ao longo de todo o evento: quem conta as histórias sobre o futuro?
Muito do que chamamos de inovação nasce a partir de determinadas visões de mundo, interesses e perspectivas. Por isso, construir novas narrativas também é uma forma de disputar futuros possíveis.
Foi com esse olhar que participei de uma roundtable no evento apresentando o Núcleo Criativo Clima, uma iniciativa coproduzida entre a Painá Filmes e a Alumia Produção e Conteúdo que reúne cineastas comprometidos em contar histórias capazes de ampliar vozes, fortalecer causas e construir contranarrativas sobre temas que impactam a nossa sociedade. Em um momento em que a atenção se tornou um dos recursos mais disputados do mundo, talvez a capacidade de contar boas histórias continue sendo uma das ferramentas mais poderosas para promover a transformação social.
O que tudo isso diz para o setor de impacto e para a filantropia?
Tudo está avançando muito rapidamente, a IA como conhecemos até aqui, está mudando muito e o que hoje usamos de forma concentrada para produtividade, me parece que estamos diante de algo maior.
A IA está se tornando infraestrutura, não mais assistente de produtividade.
Da mesma forma que hoje é impossível imaginar uma organização funcionando sem internet ou sistemas de gestão, em poucos anos será difícil imaginar equipes que não utilizem IA como parte da sua operação cotidiana e já estamos percebendo isso.
Adaptação institucional à tecnologias e IA
Um novo componente passa a fazer parte da agenda de fortalecimento institucional: a capacidade de compreender, implementar e gerir tecnologias emergentes e novas ferramentas.
Isso significa investir não apenas em ferramentas, mas também no desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e competências das equipes. Afinal, a transformação tecnológica não acontece pela adoção de plataformas. Ela acontece quando as pessoas estão preparadas para utilizá-las de forma estratégica, crítica e alinhada à missão das organizações.
Estamos entrando em uma nova fase da internet
Não sei se posso dizer que decretaram o fim dos sites, mas me parece evidente que estamos entrando em uma nova lógica de acesso à informação. Cada vez mais pessoas recorrem diretamente à IA para realizar pesquisas e encontrar respostas. Isso tem implicações profundas para comunicação, posicionamento institucional e construção de reputação.
Como ser encontrado em um mundo onde as pessoas talvez não naveguem mais pelos canais tradicionais? Essa é uma pergunta que merece atenção desde já.
A captação de recursos também está mudando
Nós já estamos vendo mudanças concretas.
Temos utilizado tecnologias, IA e o conceito mais amplo de inovação em diferentes etapas da mobilização de recursos, desde a busca de editais, pesquisas sobre financiadores até análise de oportunidades e apoio à tomada de decisão. Mas continuamos usando todo o nosso potencial interno para movimentar-se estrategicamente e dedicar tempo para aquilo que continua sendo profundamente humano: relacionamento, escuta, negociação e construção de confiança.
Em um mundo hiperconectado, a experiência humana se torna ainda mais valiosa
Nunca estivemos tão conectados. E, ao mesmo tempo, nunca ouvimos falar tanto sobre solidão. Talvez por isso eventos presenciais, comunidades e experiências compartilhadas estejam ganhando tanta relevância. Doadores, financiadores e apoiadores não querem apenas receber informações, eles querem fazer parte de algo maior. Querem conexão, pertencimento e relações de confiança.
Esse é o momento de canalizar essa força para as nossas táticas de aquisição e desenvolvimento de pessoas doadoras, por exemplo.
Dados importam, mas interpretação importa ainda mais
Vivemos cercados por dados. Mas volume de dados não significa conhecimento. As organizações que conseguirem transformar dados em inteligência para tomada de decisão estarão mais preparadas para compreender seus territórios, fortalecer suas estratégias e demonstrar resultados.
E, então?
Foi uma experiência extremamente rica para observar sinais, identificar convergências e compreender algumas das discussões que já começam a influenciar governos, empresas, financiadores e organizações da sociedade civil ao redor do mundo.
Ao mesmo tempo, depois de ter estado na China no final do ano passado, confesso que senti falta de ter uma participação mais expressiva da Ásia nas discussões, que hoje ocupa um papel central em temas como tecnologia, inovação, infraestrutura, transição energética e desenvolvimento econômico.
Também saí com uma percepção importante: embora o evento estivesse fortemente atravessado pelo tema de IA, talvez em função do momento histórico que estamos vivendo, inovação continua sendo algo muito maior e acontece na forma como nos organizamos, colaboramos, mobilizamos recursos, construímos confiança, fortalecemos comunidades e imaginamos novos caminhos para enfrentar desafios complexos.
Seguimos atentas aos sinais. Não porque acreditamos que todas as respostas estejam nesses espaços, mas porque entendemos que compreender as mudanças em curso é parte do nosso papel.
Obrigada pela leitura até aqui.
Um abraço,
Daiane Dultra


