Tendências 2026 | Como construir resiliência e sustentabilidade financeira em um cenário de transformação radical?
- Daiane Dultra
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- 19 de jan.
- 4 min de leitura

O mundo do financiamento e da captação de recursos para organizações da sociedade civil e negócios de impacto atravessa uma transformação profunda.
O que antes funcionava como um modelo relativamente estável, marcado pela cooperação internacional tradicional e por formatos consolidados de doação, hoje, dentre outras habilidades, precisamos de resiliência.
As mudanças globais são evidentes. O enfraquecimento do multilateralismo, a retração de recursos internacionais, as tensões geopolíticas e a redefinição de prioridades de financiadores impactam diretamente quem financia, por que financia e como financia. Ao mesmo tempo, essas rupturas abrem espaço para novas formas de cooperação, especialmente com o fortalecimento do Sul Global como protagonista de soluções, agendas e narrativas próprias.
A nossa aposta já começa aqui!
QUAIS SÃO AS NOSSAS PISTAS?
Estratégias de sustentabilidade financeira hoje exigem leitura de contexto, estratégia narrativa e inteligência de dados. O cenário da filantropia, da cooperação internacional e das doações está mudando e isso altera todo o ecossistema de financiamento. Indivíduos, empresas e filantropia estão, neste exato momento, redefinindo prioridades, ao passo que as iniciativas de impacto e OSCs precisam se manter de pé e fazer ajustes táticos nas suas formas de funcionar.
Nesse cenário, a sustentabilidade financeira deixa de ser apenas uma questão de captação e passa a ser uma estratégia institucional. Nunca foi tão urgente investir em desenvolvimento organizacional, governança, posicionamento e comunicação. Não se trata apenas de disputar recursos, mas de fortalecer as organizações por dentro para que consigam atravessar ciclos de instabilidade e seguir gerando impacto mesmo diante de incertezas.
Para falarmos de futuro é preciso entender o nosso atual cenário
O cenário de financiamento internacional vive um momento sem precedentes: cortes, retração e mudança de prioridades.
A América Latina sente o impacto pela dependência de recursos internacionais e pela fragilidade da filantropia nacional.
Com a crise do multilateralismo, o Sul- Global desponta como liderança e inaugura novas formas de cooperação.
Desafio de rastrear novos fluxos, construir novas relações e disputar recursos sem olhar para como iremos nos fortalecer internamente.
A forma como nos comunicamos vivencia mudanças rápidas.
A inteligência artificial, antes vista "apenas" como uma ferramenta para aumentar a eficiência, evoluiu para uma força que remodela a forma como percebemos, imaginamos, planejamos e inovamos para o futuro.
E como vamos nos preparar para 2026?
A seguir, você encontrará 7 tendências que eu acredito serem o nosso foco este ano:
Entre as principais tendências esperadas está a captação junto a indivíduos. O volume de doações no Brasil atingiu recordes recentes, no entanto, o dado que merece atenção é a queda nas doações recorrentes. Isso aponta para um desafio central: construir vínculos duradouros. As OSCs que se destacam são aquelas capazes de criar microcomunidades engajadas, com conexões mais humanas, narrativas consistentes e evidências claras de impacto.
Não basta emocionar, é preciso mostrar as evidências do seu impacto.
Outro movimento que observo com atenção é o crescimento dos family offices e da agenda de legado no Brasil. Grandes patrimônios estão estruturando sua filantropia de forma cada vez mais criteriosa, integrando doação, ESG e investimento de impacto. Esses atores não doam por impulso: analisam governança, compliance, indicadores, reputação e alinhamento de valores. Para as organizações, isso significa a necessidade de maior profissionalização, transparência e clareza narrativa.
Essas entidades doam para organizações bem posicionadas, transparentes, com compliance e narrativas fortes.
O investimento social privado e a agenda ESG também passam por uma reconfiguração importante. Temas como justiça climática, biodiversidade, restauração ambiental e território ganham centralidade, mas acompanhados de um debate crítico sobre a “descolonização do ESG”. Vejo cada vez mais financiadores interessados em parcerias horizontais, que respeitem saberes locais, fortaleçam protagonismos comunitários e superem métricas padronizadas que não dialogam com a realidade dos territórios.
Cultura, memória, arte e pertencimento deixam de ser acessórios e passam a ser reconhecidos como ativos estratégicos de impacto.
No campo internacional, apesar da retração histórica de investimento, o financiamento multilateral e bilateral segue sendo uma fonte relevante, especialmente para organizações capazes de atuar em rede, construir consórcios e responder a chamadas mais complexas. Paralelamente, as fundações privadas globais continuam movimentando volumes expressivos de recursos, ainda que não representem uma solução isolada.
A diversificação das fontes torna-se, portanto, uma estratégia de sobrevivência e crescimento.
Uma das minhas grandes apostas para os próximos anos é o avanço da cooperação Sul-Sul, com destaque para o papel da China. Mais do que uma nova fonte de recursos, trata-se de um novo paradigma de cooperação internacional, baseado em pragmatismo, corresponsabilidade e interesses mútuos.
Para as OSCs brasileiras, essa agenda exige preparo institucional, adaptação cultural e capacidade de dialogar com novos atores, linguagens e expectativas.
Ao mesmo tempo, vejo com otimismo o fortalecimento do ecossistema de recursos nacionais. A filantropia brasileira está mais estruturada e estratégica, e o ecossistema oferece múltiplos instrumentos: fundos públicos, emendas parlamentares, incentivos fiscais, fundos patrimoniais, legados e modelos híbridos de financiamento.
Expandir para além da dependência internacional não é apenas uma tendência, mas uma necessidade estratégica para o médio e longo prazo.
Por fim, a inteligência artificial se consolida como um divisor de águas. Seu impacto vai muito além da automação de tarefas: ela redefine a forma como planejamos, captamos, comunicamos e tomamos decisões. Organizações que investirem desde já em capacitação, testes e uso estratégico da IA ganharão produtividade, agilidade e capacidade de antecipação, liberando tempo para o que realmente importa: estratégia, criatividade e impacto.
A inteligência artificial já não é apenas uma ferramenta de eficiência, mas um recurso estratégico para otimizar esforços.
O ano promete! É tempo de mover-se, experimentar, fortalecer estruturas internas e assumir o protagonismo em um ecossistema em transformação. As OSCs e negócios de impacto que conseguirem ler o contexto, adaptar suas narrativas, diversificar fontes e incorporar tecnologia com intencionalidade não apenas sobreviverão, como serão peças-chave na construção dos futuros que queremos tecer.
Um abraço,
Daiane, da Painá



